Envergonhado

Ontem, segunda-feira, dia 30 de Novembro. Acordei com vergonha de ser corintiano. Hoje 01 de Dezembro. Acordei com vergonha de ser brasileiro. E não para menos. No domingo passado, a equipe em que escolhi desde pequeno para torcer, na qual fui por diversas vezes, ainda quando moço, assistir nos estádios, chorei, sorri e gritei feito louco por eles, além de ver o lob da CBF para fazer uma equipe carioca ser campeão do Campeonato Brasileiro, além de ver o juiz meter a mão, além dever outro lob para o Fluzão não ser rebaixado, além de ter abandonado a oportunidade de ser campeão do Brasileirão e fechar o ano de 2009 com 3 vitórias em campeonatos brazucas, além do Ronaldo sofrer mais contusões que eu nos meus treinos, que mesmo sem acompanhamento de treinadores, médicos, personals e sem a falta de anos de treino em equipes grandes e com todo acompanhamento possível que o dinheiro possa pagar, ainda não sofro tanto com trombadas bobas e normais do jogo que o mesmo escolheu como trabalho. Além de tudo isso minha equipe do coração ainda entregou o jogo para o mengão. Não porque eles mereciam ou rolou mala preta, branca ou sei lá que cor. Mas porque com a vitória do mesmo e os bambis (leia-se: time que ganhou estádio do governo e investimentos aos milhões do mesmo) perdendo o seu jogo eles seriam os novos líderes do campeonato, usufruindo do lob generalizado da imprensa e da CBF para que o mesmo chegasse a esse pronto, e agora é o mais forte candidato a ganhar o caneco.

SE isso já não bastasse, ainda temos alguns vídeos de políticos bonzinhos que não fizeram nada de errado. Apenas receberam dinheiro para campanha. Que não é crime. Claro que não. Crime é fazer caixa 2, receber mesadas, não declarar dinheiro que apareceu em cuecas, meias e sabe-se lá que mais peças de roupas que podem esconder dinheiro. Crime é achar que nossos políticos que apareceram orando a Deus agradecendo as benções recebidas (leia-se: dinheiro sonegado ou “doado” por empresários), são corruptos. Crime é achar que o PT deveria expulsar os políticos envolvidos no esquema no Marcos Valério. Crime então é querer que o DEM, partido novinho em folha e cheio de boas intenções, vá demitir os envolvidos nas filmagens. Isso sim é um crime. Mas crime maior é ver nosso presidente lá em terras lousitanas dizer que as imagens não provam nada. Como foi mesmo que o analfabetobêbadobemarruamdo disse ?: “A imagem não fala por si. O que fala por si é todo o processo de apuração, é todo o processo de investigação. Quando tiver toda a apuração e investigação terminadas, a Polícia Federal vai ter que apresentar o resultado final do processo. Aí você pode fazer juízo de valor e mesmo assim quem vai fazer é a Justiça”.

É,  eu me envergonho de ser Brasileiro, de ser corintiano e de ter esse blog que qs ninguém lê para dizer essas coisas. Dizer que um dia espero que as leis mudem, e que de alguma forma essas pessoas paguem com seus bens pessoais, que nem deles são, pois fui eu, vc e todos aqueles que contribuem e pagam seus impostos, que pagam essa sujeirada toda. Onde se viu ter mais de 80 mil cargos comissionados para delegar em um governo de 4 anos ? “Que país é esse ?” Já dizia a música que tanto fez eu pular e suar na minha adolescência. Isso é Brasil e hoje eu me envergonho dele.

Inserido no contexto

Nos anos setenta um músico baiano de voz rouca fez sucesso no Brasil. Era Paulo Diniz, cujo maior sucesso foi “Quero voltar pra Bahia”. Mas havia outra música no lado B do compacto, “Ponha um arco-íris na sua moringa”:

“Ponha um arco-íris na sua moringa ai ai ai
É lúcido é válido, inserido no contexto ai ai ai”

Aquele “inserido no contexto” fazia parte do repertório d’O Pasquim, que gozava os intelectuais que tentavam traduzir as correntes de pensamento filosófico pós-1968 utilizando termos complicados. Era só abrir o jornal pra ver um cartum onde o sujeito perguntava para a boazuda: “posso inserir no seu contexto?”.

Contexto é o “pano de fundo” de um evento, que determina como o evento é interpretado. Usando um exemplo de que gosto muito: a frase “só sei que nada sei”, que Sócrates formulou para mostrar que sábio é aquele que tem consciência de sua ignorância, muda completamente de significado quando colocada noutro contexto. Na boca de Lula, por exemplo.

O tempo passou, o Pasquim passou, Paulo Diniz sumiu, mas nunca foi tão importante observar o contexto antes de formular uma opinião.
Não escapei da onda. Escrevo à luz do recente escândalo da campanha de Marta Suplicy à prefeitura de São Paulo, quando a vida pessoal de seu oponente, Gilberto Kassab, passou a ser questionada na propaganda petista.

Mas, afinal, que mal há em perguntar se o sujeito é casado e tem filhos? Nenhum. Isso cansa de acontecer com todo mundo. Em entrevistas de emprego, na hora de fazer um crediário, ao abrir conta em banco, numa conversa informal… Saber se a pessoa é casada e tem filhos ajuda a ter uma idéia de quem a pessoa é. E essa informação jamais define o caráter da pessoa. Mas essas cândidas perguntas, quando inseridas no contexto da campanha eleitoral, deixam de ser cândidas.

A propaganda de Marta afirma que Kassab tem um passado misterioso envolvendo gente desonesta que causou prejuízos à cidade e ao eleitor. Portanto saber de onde ele veio e com quem anda revelaria suas (más) intenções.

Nesse contexto, perguntar se ele é casado e tem filhos transforma-se em juízo de valor: além de andar com gente suspeita, não é casado e não tem filhos. Portanto não é confiável. E – horror – talvez seja… gay!

Muitos simpatizantes tentam eximir a candidata dessa grossura eleitoral usando o clássico petista 1: “ela não sabia”. Outros usam o clássico petista 2: “mas a direita usou o mesmo método antes”. Alguns usam o clássico petista 3: o da vitimização. Ninguém foi tão alvo de preconceitos como Marta Suplicy. Portanto ela tem o direito de revidar. Falta só o clássico 4: “foi um tucano infiltrado.”

Que tal entender o contexto recorrendo aos intelectuais do PT?
João Santana, o marqueteiro de Lula, questionado sobre a desonestidade de usar na campanha para a reeleição em 2006 uma mentira, no caso a idéia de que as privatizações tinham sido um mau negócio para o Brasil, saiu-se com esta: “Eu trabalho com o imaginário da população. Em uma campanha, nós trabalhamos com produções simbólicas. Não considero que exista aí desonestidade, pois o tema foi, pelo menos, discutido.”
Marco Aurélio Garcia, assessor especial da Presidência da República para assuntos internacionais, quando perguntado se não era constrangedor ver Lula ao lado de mensaleiros disse: “Constrangedor é não ter votos”.

Pra esses caras, botar um arco-íris na moringa do Kassab é lúcido, é válido e inserido no contexto. Seja lá qual for o contexto.
E quer saber? Até que está saindo barato pro Kassab.

Retirado do
wWW.lucianopires.com.br

Em tempos teremos Kassab em São Paulo e Gabeira no Rio… purpurina para todo lado.